Qualificação de restaurantes e pequenos negócios ajuda a transformar sabores da Mantiqueira em experiências ligadas ao território e a novos públicos
Em Monte Verde, no Sul de Minas, a gastronomia está ajudando a contar uma história que vai além da mesa. Conhecido durante décadas principalmente como destino para viagens a dois, o distrito de Camanducaia vem ampliando seu repertório turístico e incorporando novos motivos para atrair visitantes. Entre eles, a comida ocupa um espaço cada vez mais relevante.
Fondues, cafés, chocolates, trutas, massas e ingredientes da Mantiqueira continuam presentes na identidade gastronômica local, mas passaram a conviver com uma busca maior por inovação, gestão e valorização dos produtos regionais.
É nesse processo que o Sebrae Minas atua há três anos por meio do programa Prepara Gastronomia, voltado aos pequenos negócios de alimentação fora do lar. A iniciativa trabalha aspectos como finanças, marketing, gestão, operação, desenvolvimento de pratos e atendimento ao cliente.
O resultado aparece tanto nos bastidores dos empreendimentos quanto naquilo que chega ao visitante: novos produtos, cardápios mais estruturados, experiências gastronômicas e uma relação mais consciente entre negócio e território.
Uma identidade construída entre culturas
Antes de iniciar o trabalho direto com os empreendedores, o Sebrae Minas realizou um estudo sobre a identidade gastronômica de Monte Verde. O objetivo era identificar elementos capazes de representar a culinária do distrito a partir do que já existia nos próprios negócios.
O levantamento apontou uma gastronomia formada pelo encontro de referências europeias, principalmente alemãs e italianas, com a culinária mineira.
Em vez de uma característica única, Monte Verde revelou uma combinação de culturas, ingredientes e maneiras de cozinhar construídas ao longo da trajetória do destino.
A partir dessa identificação, o trabalho avançou para a qualificação dos estabelecimentos. O Prepara Gastronomia passou a atuar tanto sobre a gestão quanto sobre o desenvolvimento de produtos e a maneira como cada negócio constrói sua relação com o visitante.
“Quando o empreendedor passa a olhar para o próprio negócio com mais clareza, ele consegue identificar oportunidades que muitas vezes estavam ali, mas ainda não eram percebidas. É esse amadurecimento que o Prepara Gastronomia busca promover em Monte Verde: decisões mais conscientes, novos caminhos para os produtos e experiências turísticas cada vez mais conectadas ao território”, afirma o analista do Sebrae Minas Anderson Faria.
Qualificação que chega ao prato
A dimensão do trabalho pode ser observada no número de empreendimentos atendidos pelo programa. Foram 19 estabelecimentos em 2024, 21 em 2025 e 23 em 2026.
A qualificação também se conecta ao calendário gastronômico do destino. Em 2026, o festival Gastronomia nas Montanhas foi realizado entre 25 e 27 de setembro, reunindo 29 estabelecimentos e uma programação que combinou gastronomia e música ao vivo.
Antes do festival, o circuito gastronômico movimenta os restaurantes participantes durante cerca de 20 dias. Os estabelecimentos apresentam pratos desenvolvidos especialmente para a ocasião, em sua maioria com apoio da consultoria do chef do Prepara Gastronomia.
A programação inclui ainda os Festins, nos quais chefs de Monte Verde cozinham ao vivo, além de jantares especiais e oficinas abertas ao público. A iniciativa é realizada em parceria com a Agência de Desenvolvimento de Monte Verde e Região (Move).
Para Anderson Faria, a transformação pode ser percebida no cotidiano das empresas.
“É no cotidiano dos empreendimentos que esse processo ganha forma. As consultorias aparecem em novos produtos, na organização da operação, na precificação e na maneira como os empresários pensam a experiência oferecida ao visitante.”
Café e chocolate ganham novas leituras
Alguns dos produtos mais associados a Monte Verde também passaram a receber novos tratamentos. Café, chocolate e ingredientes encontrados na Mantiqueira aparecem em receitas e combinações que procuram ampliar sua presença na experiência do visitante.
No Canto da Araucária, por exemplo, cafés especiais, diferentes métodos de preparo e acompanhamentos são trabalhados em propostas de harmonização.
A participação no Festival Gastronômico em 2026 representou uma nova etapa para o negócio, acompanhada por receitas e experiências desenvolvidas durante o processo de qualificação.
Para a empreendedora Tatiane da Silva Silvério, um dos principais ganhos esteve na gestão financeira.
“O Prepara Gastronomia trouxe, além da possibilidade de participar do Festival Gastronômico, muitas experiências, receitas novas e ideias para o Canto da Araucária. Principalmente na parte financeira, a consultoria foi um norte para mim, porque aprendi a fazer a ficha de precificação de forma correta.”
Na Cocoa Sil, a qualificação acompanha uma trajetória mais longa. Depois de cerca de duas décadas trabalhando com chocolate, a empreendedora Sílvia Urias conheceu o conceito Bean to Bar e decidiu investir na produção própria.
O caminho incluiu estudos, visitas a fazendas de cacau e aquisição de equipamentos. Atualmente, a empresa também fornece chocolate para receitas desenvolvidas em hotéis, pousadas e cafeterias de Monte Verde.
A participação no Prepara Gastronomia começou em 2025. A partir daí, a empresa avançou na regularização junto à Vigilância Sanitária, realizou ajustes no espaço e trabalhou na normalização de receitas e rotulagem. O próximo passo é iniciar o trabalho de Boas Práticas.
“Fui para o Prepara com medo, achando que era um grão de areia em meio aos demais. Mas o acolhimento, a convivência com os outros empreendedores e o apoio do Sebrae foram primordiais. Me surpreendi com o meu potencial.”
Memória familiar vira cozinha autoral
No Villa Donna Bistrô, a gastronomia nasceu de uma história familiar e encontrou em Monte Verde espaço para construir uma identidade própria.
A chef Sônia Kohen chegou ao distrito em 2009, quando deixou São Paulo ao lado do marido. O restaurante foi criado a partir de receitas da mãe e das tias, marcadas pela influência italiana da família.
Com o passar dos anos, essas referências passaram a dialogar com ingredientes e sabores mineiros, formando o que Sônia define como uma gastronomia ítalo-mineira, criativa e autoral.
A participação no Prepara Gastronomia ajudou a estruturar aspectos relacionados à gestão, operação e formação da equipe. Depois de participar de todas as edições do programa, a chef conseguiu reduzir sua presença na rotina operacional da cozinha e concentrar mais tempo na criação dos pratos e na gestão do restaurante.
“Hoje, consigo reduzir perdas, resumir o cardápio e ter processos muito mais efetivos, rápidos e ágeis. O Prepara fez uma diferença muito grande, e a Academia de Chefs está sendo um aprimoramento gigantesco na minha forma de lidar com os problemas.”
A trajetória também ganhou reconhecimento com o Prêmio Cumbuca 2025, na categoria Prepara Gastronomia, e com a participação no projeto Academia de Chefs do Sebrae Minas.
Em 2026, Sônia integrou ainda a programação do Gastronomia nas Montanhas, conduzindo uma das cozinhas-show.
Quando comer passa a fazer parte da viagem
A transformação dos negócios também aproxima a gastronomia de outra dimensão do turismo: a experiência.
No Teko Porã Experiências Parque e Lazer, Claudinei Salles de Souza e Elder Mani dos Santos transformaram um terreno degradado em um espaço que reúne lavandário, Café e Empório e experiências gastronômicas.
Antes mesmo da construção do bistrô, a casa do chef Elder já recebia visitantes para um menu surpresa de cinco tempos, criando uma proposta mais intimista de contato com a gastronomia.
A participação no Prepara Gastronomia e em outras capacitações ajudou os sócios a olhar para o empreendimento também pela perspectiva da gestão e da experiência oferecida ao visitante.
“A gastronomia está na origem do Teko Porã, então participar do Prepara fazia muito sentido para nós. O programa nos ajudou a pensar como cuidar dessa experiência em cada parte do negócio, da gastronomia à forma de receber. Voltamos com referências, contatos e ideias para colocar em prática”, afirma Claudinei.
O Hügel Bar & Gastronomia segue caminho semelhante. Criado em 2021 por Ronaldo Paes, Rebeca Wagner e Isildinha Antonelli, o negócio transformou uma antiga casa no alto da montanha em um espaço de gastronomia, música ao vivo e contemplação da Serra da Mantiqueira.
Com o tempo, a casa passou a trabalhar com reservas, organizando a permanência dos visitantes e incorporando o próprio tempo passado no local à experiência.
As consultorias do Prepara Gastronomia entraram nesse processo para estimular novos olhares sobre cozinha e operação, além de apoiar o desenvolvimento de produtos.
“Cada participação no Prepara faz a gente sair com novas ideias e uma nova percepção do nosso negócio. Ter um chef dentro do estabelecimento, olhando para a operação e para os bastidores é muito enriquecedor. Ele traz novos pontos de vista, nos ajuda a criar junto e mostra onde podemos melhorar. Para nós, esse olhar externo, mas profissional e por dentro do negócio, faz muita diferença”, ressalta Ronaldo.
Gastronomia ajuda a redesenhar o destino
O trabalho desenvolvido em Monte Verde revela uma transformação que não acontece somente nos restaurantes. À medida que os empreendedores qualificam seus produtos, organizam processos e encontram novas maneiras de apresentar ingredientes e histórias locais, a gastronomia passa a participar da própria construção turística do destino.
O movimento também ajuda Monte Verde a ampliar sua comunicação para diferentes públicos. A identidade construída entre referências europeias, cultura mineira e ingredientes da Mantiqueira deixa de funcionar apenas como pano de fundo e passa a ser apresentada como parte daquilo que o visitante pode conhecer, experimentar e levar da viagem.
Nesse processo, a qualificação dos pequenos negócios ganha uma dimensão territorial. O que começa na ficha de precificação, no desenvolvimento de um prato ou na organização de uma cozinha termina também na maneira como o destino é percebido à mesa.
Leitura de Mercado | Turismo&Eventos
Monte Verde mostra como a gastronomia pode participar da transformação de um destino sem apagar aquilo que já faz parte de sua identidade. O trabalho de qualificação atua justamente sobre essa base existente, ajudando os negócios a organizar, interpretar e apresentar melhor seus próprios diferenciais.
A evolução também amplia o papel da alimentação na viagem. Restaurantes, cafeterias, chocolaterias e experiências gastronômicas passam a ser motivos para permanecer, circular e conhecer o território, e não apenas serviços complementares à hospedagem.
Para um destino historicamente associado às viagens românticas, esse processo abre espaço para uma identidade turística mais ampla, na qual a gastronomia funciona como uma das portas de entrada para conhecer Monte Verde e a Serra da Mantiqueira.

